Desde pequenos, somos ensinados a entender quem somos através das histórias que os nossos pais nos contam. "Você era um bebê chorão", "Você adorava tal comida", ou, em casos mais sensíveis, "Aquele dia foi o pior da sua vida".
Por Dianna Moura
16 de Junho de 2026 às 07:00
Existe um ponto nevrálgico da psicologia familiar: a projeção. Muitas vezes, o que carregamos como "trauma" não é a nossa própria ferida, mas sim a cicatriz de um dos nossos pais que foi projetada sobre nós.
Pensemos como exemplo em uma criança aos três anos de idade e seus pais decidem se separar. O pai diz: "Estou indo morar em outra casa". Para uma criança de três anos, a compreensão do mundo é literal e imediata. Naquele momento, sua reação foi um simples "tchau" ou um gesto de aceitação. A criança não tinha, naquela idade, o repertório emocional para entender a separação como uma tragédia existencial. No entanto, a mãe dela carregou essa cena por décadas. Para a mãe, aquele foi o "momento ruim da nossa vida". Durante toda a vida adulta da filha, a mãe reafirmou essa narrativa de que a filha havia sido traumatizada ali.
Aqui está a grande lição: muitas vezes, os pais sentem tanta culpa por suas escolhas ou sofrimentos que acabam "etiquetando" a experiência dos filhos. A mãe, sofrendo com a separação, assume que a filha também estava sofrendo da mesma forma e na mesma intensidade.
Isso cria o que chamamos de trauma por tabela. A criança cresce ouvindo que aquele momento foi terrível e, eventualmente, ela passa a acreditar que é uma pessoa traumatizada, mesmo que sua memória original seja neutra. Nós passamos a adotar a dor dos nossos pais para validá-los, ou simplesmente porque não conhecemos outra versão da história.
É importante questionar as nossas próprias "verdades" familiares. Quantas vezes você se sente triste por algo que aconteceu na sua infância apenas porque lhe disseram que aquilo foi triste? Diferenciar a dor da sua mãe da sua própria vivência é um ato de libertação. Você pode reconhecer que a separação foi difícil para ela, sem precisar aceitar que ela destruiu a sua infância.
A cura, em muitos casos, não é sobre esquecer o passado, mas sobre reeditá-lo. É ter a coragem de dizer: "Mãe, eu entendo que isso foi horrível para você, mas eu estava bem." Ao devolvermos aos nossos pais as dores que pertencem a eles, ficamos mais leves para carregar apenas o que é nosso. A vida é curta demais para vivermos o trauma de uma história que nem sequer lembramos de ter sofrido. Através da terapia e do autoconhecimento é possível entendermos melhor nossas histórias e como nos sentimos em cada momento.
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