Processo civil sem mistério: saiba como funciona uma ação judicial
Do Juizado Especial à Vara Cível comum, entender as etapas, as despesas e até a dificuldade de receber uma condenação evita falsas expectativas sobre o Judiciário.
Por Matheus Almeida Pereira | OAB/RJ 217.707
21 de Agosto de 2026 às 09:34
“Quanto tempo demora?”, “quanto me custará” e “como funciona o processo?” estão entre as perguntas mais comuns de quem procura um advogado pela primeira vez. Embora o Judiciário faça parte do cotidiano brasileiro, grande parcela da população nunca participou de uma ação e desconhece etapas, custos e até mesmo o que acontece depois de uma sentença favorável.
Um primeiro ponto é diferenciar o Juizado Especial Cível da Vara Cível comum. O Juizado foi criado para causas de menor complexidade e, em regra, pode julgar demandas de até 40 salários mínimos.
Outra diferença importante está no custo. Em primeiro grau, o acesso ao Juizado é gratuito. Entretanto, havendo recurso, é necessário advogado e, salvo gratuidade de justiça, haverá preparo. Se o recorrente for vencido, a Lei dos Juizados prevê também custas e honorários advocatícios de até 20%.
O procedimento é mais simples. A ação começa com o pedido inicial, a parte contrária apresenta defesa e podem ser realizadas audiências de conciliação e instrução. Em determinados casos essencialmente documentais, o juiz pode fundamentadamente dispensar a audiência e promover o julgamento antecipado, garantindo previamente a manifestação das partes. O próprio TJRJ possui orientação nesse sentido.
Por isso, alguns processos de Juizado chegam à sentença em poucos meses. Isso, porém, não representa prazo garantido. Audiências, recursos, dificuldade para localizar uma parte e outras circunstâncias podem prolongar significativamente a demanda.
Na Vara Cível comum, o caminho possui mais etapas. Após a petição inicial e a citação – que é o “chamamento” do réu para apresentar defesa, pode ocorrer audiência de conciliação. Vêm depois a manifestação do autor sobre a defesa - réplica. Se o processo ainda depender de provas, o juiz realiza o saneamento, definindo as questões controvertidas e o que deverá ser produzido. Podem existir perícia, prova documental, testemunhas, depoimentos e audiência de instrução. Somente depois vem a sentença, da qual cabe recurso.
Vale destacar que, na Justiça comum, salvo concessão da gratuidade, existem despesas que precisam ser antecipadas durante o processo. Ao final, a parte vencida deve reembolsar ao vencedor as despesas que este adiantou.
No Rio de Janeiro, a discussão merece atenção especial. A regra geral da taxa judiciária é de 3% sobre o valor dos pedidos, sem contar outras custas e acréscimos aplicáveis, uma ação simples e de baixo valor passa facilmente de R$ 2.000,00 (dois mil reais) - só para entrar com o processo. Vale destacar, isso não é pro advogado, é pra justiça.
O modelo merece crítica. É difícil justificar que alguém que já sofreu um prejuízo tenha de ampliar esse prejuízo para conseguir pedir proteção ao Estado. O acesso à Justiça não pode se transformar em um teste de capacidade financeira.
A gratuidade de justiça existe justamente para quem não possui recursos suficientes para suportar custas, despesas e honorários. Ainda assim, há uma faixa considerável da população que não se enquadra facilmente na gratuidade e, ao mesmo tempo, sente de forma significativa o peso desses valores.
Há, finalmente, uma realidade que precisa ser explicada desde o início: ganhar não significa necessariamente receber.
Depois da condenação definitiva, se o devedor não pagar, inicia-se o cumprimento, com possibilidade de pesquisa e penhora de patrimônio. Se não forem encontrados dinheiro ou bens, a existência de uma decisão favorável pode não resultar em pagamento imediato.
Também não existe prisão civil por uma dívida comum. No Brasil, a prisão civil está restrita à inadimplência de obrigação alimentar nas hipóteses admitidas pelo ordenamento jurídico.
Por isso, ajuizar uma ação exige análise que vai além de saber se existe um direito. É preciso compreender o procedimento adequado, as provas disponíveis, os custos, os riscos, o tempo provável e a possibilidade concreta de satisfação do crédito. Conhecer esse caminho reduz ansiedade e, principalmente, evita a falsa ideia de que processo judicial possui prazo certo ou resultado financeiro automático.
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