Você já disse ou ouviu a frase: "Eu esqueci de mim"?
Por Dianna Moura
27 de Outubro de 2026 às 07:00
Quando alguém diz isso, raramente é por distração. Quase 100% das vezes, é porque essa pessoa esteve tão ocupada cumprindo uma função, uma missão ou atendendo às necessidades do outro que deixou a própria vida em segundo plano.
E a raiz desse comportamento não começou hoje. Ela foi semeada muito tempo atrás, no nosso primeiro grupo social: o sistema familiar. Quando somos crianças, fazemos de tudo para sermos vistos, aceitos e amados — e é exatamente aí que aprendemos a vestir um "papel".
As crianças são extremamente perspicazes. Elas observam a dinâmica da casa e encontram inconscientemente uma brecha para existirem e garantirem o olhar dos pais.
Para a criança, amor é atenção. Se ela não é vista, ela sente que não existe.
Se já existe o "filho perfeito" ou o "estudioso", outra criança pode assumir o papel da "rebelde" ou da "filha problema". Afinal, o problema exige atenção dos pais, e assim ela garante o seu lugar.
Outra pode tornar-se a "doentinha", a "cuidadora" ou a "boazinha".
Nenhum papel é por acaso. Cada um serve a uma necessidade de pertencimento e sobrevivência emocional.
O grande desafio é que a gente cresce, mas continua a reproduzir o mesmo papel da infância em todos os grupos que frequentamos na vida adulta — no trabalho, nos relacionamentos interpessoais e nas amizades.
O cuidador continua a cuidar de todos ao seu redor, mas desenvolve uma enorme dificuldade de olhar para as próprias necessidades.
O rebelde continua sempre a nadar contra a correnteza e a arrumar lutas externas, ficando tão ocupado com a causa que também não consegue se enxergar.
Tanto a rebeldia quanto a dedicação extrema aos outros tornam-se prisões invisíveis. São movimentos direcionados sempre para fora, impedindo o olhar para dentro.
Reconhecer o papel que você desempenhou na sua casa de infância é o primeiro passo para a libertação.
Não se trata de culpar a família ou criticar a si mesmo, mas de entender que essa foi a estratégia mais inteligente que a sua versão criança encontrou para receber amor.
Hoje, como adulto, você não precisa mais ficar preso a essa função antiga. Você pode olhar para si mesmo, acolher as suas próprias vontades e decidir ocupar novos lugares no mundo — lugares baseados na sua verdadeira essência, e não apenas na necessidade de ser visto.
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