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A Armadilha do Autocuidado: Quando o Descanso se Torna Performance
Vivemos em uma era onde a busca pelo "autocuidado" se tornou um dos tópicos mais buscados nas redes sociais...
Por Dianna Moura / @diannamoura_selfterapias
15 de Maio de 2026 às 07:00
Se você abrir o TikTok agora e digitar essa palavra, será inundado por imagens de velas aromáticas, banhos "premium", rotinas de dez passos para a pele e uma lista infinita de produtos. Mas, em algum momento, precisamos parar e perguntar: estamos realmente cuidando de nós mesmos ou apenas fazendo a manutenção de uma embalagem?
Se pensarmos no seguinte exemplo: uma mãe que pede ao marido apenas duas horas de folga para "cuidar de si". No entanto, a lista de tarefas para esse tempo livre é reveladora: fazer a sobrancelha, depilar o buço, cuidar das unhas, clarear os dentes. O que era para ser um momento de descanso e reconexão, se transforma em uma lista de obrigações estéticas.
Isso nos mostra um fenômeno preocupante: o autocuidado foi sequestrado pela estética. O "cuidar de si" das mulheres foi reduzido a "dar conta da própria aparência". Em vez de ir à praia, ver um filme com as amigas ou simplesmente cochilar, a prioridade é a depilação. O descanso virou performance; o lazer virou trabalho de manutenção.
Para justificar essas rotinas exaustivas, as redes sociais frequentemente distorcem uma frase icônica da escritora Audre Lorde: "Cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação, e isso é um ato político".
Mas há um abismo de contexto que o algoritmo ignora. Audre Lorde escreveu isso no epílogo de seu livro enquanto enfrentava um câncer. Para ela, a autopreservação não era sobre cremes caros ou prateleiras de cosméticos; era sobre o direito de permanecer viva e funcional em um sistema que a negligenciava. Era sobre não ser engolida pelo medo da morte e pela doença.
Quando trazemos esse "ato político" para a depilação do buço, estamos, de certa forma, banalizando a luta pela sobrevivência. O nosso apego desesperado à aparência nada mais é do que uma tentativa torta de controlar o tempo e o inevitável. Ao focarmos tanto na "manutenção do uniforme", perdemos a chance de viver o que realmente nos preserva: o silêncio, a pausa real e o direito de envelhecer sem pedir desculpas.
A verdadeira questão que fica é: se tirarmos todos os espelhos e produtos de beleza da sua rotina de hoje, o que sobraria do seu autocuidado? Talvez seja hora de resgatar o sentido original de Audre Lorde e entender que descansar, sem precisar estar bonita para a internet enquanto o faz, é o verdadeiro ato de resistência.
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